A atual polêmica em torno dos direitos autorais, que envolve a nova ministra Cultura, Heloísa Buarque de Holanda, reacendeu em minha memória duas histórias da juventude.
Eu tinha entre 16 e 17 anos quando um despachante de Santo André, que representava a Sbat – então denominada Sociedade Brasileira de Autores Teatrais – me convidou e remunerou para fazer a cobrança dos direitos autorais de espetáculos apresentados na cidade.
Minha primeira grande surpresa nessa atividade ocorreu no dia em que ele me pediu para ir a um cinema da cidade – o Cine Tamoio – para fazer a cobrança dos direitos autorais de um show de strip tease, que obviamente era proibido para menores de idade (meu caso naquela época).
Pensei que o despachante estava brincando comigo, mas era verdade. Achei inacreditável que um show sem autor, sem roteiro e sem direção – no qual mulheres rebolavam e contorciam os corpos aleatoriamente, tirando peça por peça as roupas que vestiam, tendo como único elemento cênico um mastro fino e arredondado no centro do palco – tivesse de pagar direito autoral. Mas teve e pagou, porque assim determinava uma lei (o texto está no passado porque não sei se isso continua valendo ainda hoje).
Creio que a razão da cobrança não foi a natureza da apresentação, mas o fato de ela ser realizada num palco. Fiquei sabendo que todas as boates, os inferninhos, recolhiam direitos autorais quando apresentavam dançarinas e stripers. Se isso valer ainda hoje, é evidente que ocorram cobranças similares em apresentações de sexo explícito. Minha dúvida é: se não há autor, quem fica com a grana?
Como eu integrava um grupo de teatro amador naquela época, um grupo que durou pouco mas foi importante na minha formação cultural, é evidente que a diversão com os amigos nos dias seguintes à cobrança no Cine Tamoio foi imaginar como seria escrever (ou roteirizar) e dirigir um espetáculo de strip tease. Criamos uma espécie de laboratório que nos excitava bastante – e ajudou a quebrar preconceitos que tínhamos com relação a dançarinas, stripers e prostitutas.
Mas a história mais relevante da minha aventura juvenil como cobrador de direitos autorais se deu algum tempo depois, quando a épica montagem brasileira de “O Homem de La Mancha”, de Miguel de Cervantes, fez a sua estréia nacional no Teatro Municipal de Santo André. Estrelada por Paulo Autran, Bibi Ferreira e Grande Otelo, a montagem tinha direção de Paulo Pontes e Flávio Rangel, com músicas vertidas para o português por Chico Buarque e Ruy Guerra.
À exceção de Chico Buarque e Ruy Guerra, convivi com todo esse pessoal durante o mês em que a peça ficou em cartaz em Santo André. Assisti a ensaios, fui a almoços e jantares e, o melhor de tudo, fiz amizade com o Paulo Pontes, que era quem conferia comigo, todos os dias, os valores que eram recolhidos como direitos autorais.
Casado com Bibi Ferreira, e já consagrado como um dos maiores nomes do teatro brasileiro – alguns anos depois, quando eu já era jornalista e atuava na área de cultura, ele seria o parceiro de Chico Buarque na premiadíssima “Gota D’Água” – o Paulo era um homem simples, mirrado, muito magro mesmo. Gostava de me ouvir falar sobre como era a vida no ABC, o ambiente das indústrias, os jovens filhos de operários e o teatro amador de Santo André (que na época era conhecido em todo o Brasil pela sua qualidade e ousadia). Ele conhecia e gostava de atores da cidade, como o Antonio Petrin, a Sonia Guedes, a Analy Alvarez e o Henrique Lisboa.
Foi uma honra ter convidido todos os dias de um mês com o Paulo. Enquanto o espetáculo transcorria no palco, ficávamos batendo papo numa salinha dos bastidores do teatro. Quando ele leu o meu primeiro texto sobre teatro, publicado pelo Diário do Grande ABC, mandou um telegrama cumprimentando.
Sua morte, devido a uma grave enfermidade, com apenas 37 anos de idade, foi uma perda irreparável para a cultura brasileira. Paulo Pontes também foi um dos autores do seriado “A Grande Família”, que a Globo apresenta até hoje com muito sucesso de público e crítica. Ele ainda roteirizou o show “Brasileiro, Profissão Esperança”, estrelado por Paulo Gracindo e Clara Nunes no início dos anos 70.
Graças à cobrança de direitos autorais, tive a oportunidade de conhecer muita gente importante do teatro brasileiro: Maria Dela Costa, Sandro Polone, Raul Cortez, Ziembinsky, Silney Siqueira, Celso Nunes, Eva Wilma, John Herbert, Nicete Bruno, Paulo Goulart, Carlos Zara… Lamento não ter procurado saber mais sobre essa atividade. Até gostaria de ter uma opinião sobre a polêmica que ocorre hoje. Mas, pensando bem, talvez seja mesmo melhor guardar as boas lembranças e desejar que os artistas sejam sempre remunerados justamente pelo que produzem.
E que todas as pessoas que cuidam da gente nunca se descuidem do amor.