Dúvidas, dúvidas, dúvidas

Emissoras de TV do Paquistão retiraram do ar a foto de Osama Bin Laden morto, que está correndo o mundo, por considerarem que ela é falsa. Afirmam que essa mesma imagem já havia circulado na rede em 2009.

Imagine se essas emissoras exibissem hoje ou amanhã um depoimento do verdadeiro Bin Laden, segurando nas mãos a edição do New York Times que anuncia a sua execução por uma força especial do exército dos EUA.

Não acredito que Barack Obama seria louco de noticiar a morte de Bin Laden se ela, de fato, não tivesse ocorrido. Não tenho dúvida de que o maior terrorista de todos os tempos está morto.

Mas há muita coisa que precisa ser esclarecida, muita coisa mal explicada até agora, muita falta de transparência na divulgação do que de fato ocorreu.

1 – Por que Bin Laden não foi capturado vivo, para ser julgado por seus crimes por uma alta corte internacional? Afinal, a operação foi planejada durante meses, não foi coisa feita de uma hora para outra.

2 – Por que não foi divulgada uma foto dos soldados que participaram da operação ao lado do corpo de Bin Laden? Assim não restaria dúvida de que eles realmente “fizeram o serviço”.

3 – Por que desapareceram tão rapidamente com o corpo do terrorista? Por que dar valor a uma tradição religiosa em se tratando de um criminoso que não merece a menor clemência? (Nada contra a religião muçulmana e o respeito às suas tradições, mas trata-se evidentemente de um caso muito especial).

Não duvido que Bin Laden esteja morto, mas a história está muito mal contada até agora. O pior é que por enquanto só temos a história oficial – e o governo dos Estados Unidos já faltou gravemente com a verdade. Não é demais lembrar o caso do Iraque, onde não foi encontrada uma única arma química.

A festa que os norte-americanos fizeram na madrugada em que receberam a notícia da morte de Bin Laden foi uma reação emocional, uma comemoração que esperavam há 10 anos. Nos próximos dias eles começam a cair na real e vão querer saber mais.

Até agora essa notícia é importante mesmo para dar uma revigorada na imagem do presidente Barack Obama. Nem a dúvida sobre ele nasceu ou não nos EUA vai se sustentar daqui para a frente. Se ele der uma boa melhorada na economia do país terá a reeleição praticamente garantida.

A festa da realeza

Ninguém pulou os muros do palácio, invadiu a festa e viu coisas que ninguém deveria saber.

A festa da realeza britânica foi um porre. Tudo transcorreu conforme o roteiro escrito com meses de antecedência. O que se viu, leu ou ouviu foi justamente o que a realeza tinha interesse em divulgar.

A polêmica ficou por conta dos chapéus e das roupas. A grande novidade foi William e Kate saindo do palácio num carro conversível – coisa que eles poderiam ter feito de qualquer outro jeito, de avião, navio ou skate, que não faria a menor diferença.

Nossa vida empobrece quando faltam ousadia e irreverência.

O apressado come cru

Política não é uma coisa que se ”lê” de imediato, no instante em que as coisas ocorrem, no frescor da notícia. É preciso deixar a coisa “andar”, maturar, seguir em frente pra ver como é que fica… Política é um mundo em que o apressado quase sempre come cru.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi bombardeado de críticas por petistas, aliados do Governo Federal e até setores do PSDB, por ter escrito que os tucanos devem deixar de priorizar o apoio dos pobres e focar as suas ações políticas na classe média.

FHC não escreveu isso porque despreza os pobres, muito pelo contrário. Apenas mostrou que continua lúcido e antenado, na linha de frente da política brasileira. Com o avanço econômico do País, o que mais cresce e salta aos olhos é a classe média, a camada da sociedade que mais influi na vida política, inclusive sobre os mais pobres, para o bem ou para o mal.

Pode-se até questionar se FHC deveria ter tornado público esse seu pensamento, se não ficaria melhor divulgá-lo internamente no partido, como uma estratégia de longo alcance. É mesmo uma ideia delicada e incomoda, dá a impressão de que os pobres serão esquecidos. Mas o fato é que o ex-presidente colocou a classe média no centro da política brasileira – e é ela que será o centro das atenções daqui para a frente.

Quem ouviu o pronunciamento da presidente Dilma em alusão ao Dia do Trabalho pôde comprovar que FHC está mais atual do que nunca. Os críticos imediatistas agora vão ter de morder a própria língua… Tomara que aprendam a dar o devido tempo para que tudo se ajuste quando se trata de política.

O fantástico show da morte

Um jovem armado e cheio de munição mata 11 adolescentes e depois comete suicídio numa escola do Rio de Janeiro. Um jovem se esfaqueia tocando piano num palco nos Estados Unidos – e a platéia, que imaginava tratar-se de uma performance – aplaude. É o show da vida na versão show da morte.

Na minha adolescência, sempre que rolava um papo sobre suicídio – e isso é uma coisa que costuma rolar entre os jovens – só admitiamos morrer atropelados por um Rolls Royce na 5ª de NY. Já existia instintivamente o conceito de que a morte pode ser um espetáculo. A diferença é que caíamos na gargalhada e embarcávamos nos velhos Fuscas de sempre pra tentar descolar umas minas.

E tudo bem, a vida seguia em frente. Com alguns outros tipos de atropelos, é claro. Inclusive o fato de sermos jovens e o sinal estar fechados para nós, como diz aquela antiga canção do Belchior. A morte-espetáculo era apenas uma “aspiração lúdica” eh eh eh.

Hoje a morte-espetáculo é uma possibilidade cada vez mais real. Quase sempre planejada, programada e anunciada com antecedência, ela precisa do palco e da mídia. Enfim, precisa do público. Tem de ser explícita, mas não pode se explicar muito. Tem que deixar um rastro de mistério para que exista e permaneça o mito.

Culpa dos parafusos soltos da nossa civilização? Como se entra e se sai desse desse mar escuro e profundo? Ah, a hipocrisia tem muito a ver com tudo isso, certamente…

Tudo que é proibido é, ao mesmo tempo, bastante acessível. Dizem que você não pode ir, ter ou fazer, mas é muito fácil você ir, ter ou fazer. Às vezes depende apenas de determinação pessoal; outras, de bons contatos; e outras, ainda, vem alguém e te oferece de bandeja.

Não pode beber? Pode, a bebida está à venda nas melhores casas do ramo. Você pode comprar quantas garrafas quiser. Beber com moderação? Ora, depois da primeira talagada, depois que a euforia se instala, tudo é imprevisível…

Não pode ter armas? Ora, elas entram por todos os poros do País.

Não pode transar drogas? Ora, o traficante mora ao lado, ou melhor, vive na cola e muitas vezes se torna o melhor amigo.

Não pode fumar? Ora, quem se atreveria a acabar com a indústria do tabaco? Não podemos fazer isso porque vamos ceifar milhares de empregos? E o que iremos salvar? (A propósito, sou fumante).

Estamos perdendo o controle, a noção de limites? Ou será que é excesso de controle e querer impor limites?

Quem é essa moçada que mata e se mata dando show? Filhos dos filhos de Woodstock?

Pra onde caminha a humanidade?

Unanimidade, honradez e honestidade

A quantas pessoas pode ser aplicada a palavra unanimidade? E os atributos de honradez e honestidade? São poucas – poucas mesmo. Mas José Alencar, nosso ex-vice-presidente, que faleceu hoje depois de uma batalha de mais de uma década contra um câncer, é uma delas.

Alencar deixou um legado de unanimidade, honradez e honestidade – não necessariamente nessa ordem – porque nunca abriu mão das suas ideias, da ética e da transparência. A sua luta pública contra o câncer apenas reforçou esses valores, mas não os construiu.

O que fez Alencar ser Alencar foi a firmeza do seu caráter. Participante ativo do Governo Lula, ele nunca fugiu da raia. Foi um crítico duro e contumaz dos juros altos. Também foi crítico e duro contra o mensalão – ao contrário de Lula, que se omitiu.

Especialmente quanto ao mensalão, é importante lembrar que Alencar fez as suas críticas num momento em que era decidida a chapa para a reeleição de Lula. Por isso, os petistas o queriam fora. Mas Lula fez questão de tê-lo o lado porque todo governante sabe da importância de ter reservas morais em sua equipe.

Não concordei ou concordo com tudo o que Alencar disse, fez ou pensou como cidadão, político e empresário. Mas democracia é exatamente isso mesmo. Você não precisa concordar. O importante é respeitar, reconhecer e conviver com a opinião contrária quando sabe que ela é honesta e honrada.

Esse conceito me lembra de uma situação que vivenciei algumas vezes como editor de jornal. Convivi com repórteres – minoria, felizmente – que tinham receio de fazer perguntas duras e incisivas aos seus entrevistados, temendo correr o risco de perder a fonte.

Baseado em minha própria experiência – e eu fiz muitas reportagens sobre denúncias graves na área de política – a eles eu sempre dizia que um repórter não perde a fonte porque fez perguntas duras e incisivas. O entrevistado sabe que o bom profissional da imprensa vai fazer exatamente isso. A perda da fonte se dá quando o jornalista não reproduz corretamente o que o entrevistado disse – seja por qual motivo for.

PS – No mesmo instante em que morria José Alencar, em São Paulo, o Senado Federal, em Brasilia, prestava uma homenagem ao ex-governador paulista Mário Covas, outra unanimidade da vida pública brasileira. Político honesto e honrado, acima de qualquer suspeita. Hoje é um dia para ser lembrado pelas pessoas raras.

Ceni e o ornitorrinco

Creio que é no livro “Em que creem os que não creem”, no qual expõe ao cardeal católico Carlo Maria Martini as suas dúvidas sobre questões relacionadas a religiosidade, sacerdócio, ética, liberdade de escolher e agir, mulher, aborto e engenharia genética, entre outros, que o italiano e ateu Umberto Eco, importante pensador da atualidade, aborda a necessidade e importância de que se forme um novo tipo de profissional: o especialista que saiba selecionar e indicar o que de fato tem conteúdo e é verdadeiro na internet.

Eco comenta com Martini um aspecto fundamental da pesquisa que realizou para escrever o seu livro “Kant e o Ornitorrinco”. Lembra que na época fez uma consulta no Yahoo – ainda não existia o Google – sobre tudo o que havia na rede mundial a respeito do filósofo alemão Emanuel Kant. Se não me falha a memória, Eco relata que surgiram na tela cerca de 10 mil resultados relacionados a Kant (hoje já são mais de 113.000 no Google), e que apenas uns 10% poderiam ser levados a sério por pesquisadores e estudantes.

Essa questão é extremamente relevante, porque Eco cita distorções graves sobre a vida e os escritos de Kant que estão postados na internet. Há de tudo – todo tipo de elogio e difamação pessoal, ideias que Kant nunca teve e que jamais seriam possíveis na sua linha de pensamento ou mesmo na época em que viveu, erros propositais adicionados a seus verdadeiros conceitos filosóficos… O pensador italiano enfatiza que não é apenas Kant o alvo desse tipo de ataque. A mentira, a falsificação barata, a difamação e a má intenção atingem praticamente tudo o que está na rede. Em síntese: há muita coisa do bem e muita coisa do mal.

Diante de toda essa balburdia, imagine um estudante de nível médio que tenha de fazer uma pesquisa na internet sobre Emanuel Kant. Vamos supor que seja um estudante preguiçoso, pouco interessado no assunto e que, por isso mesmo, não tem o menor cuidado na busca de informações. Nem ao professor ele faz a pergunta básica: quem foi Kant e o que ele fez de importante?  Esse estudante se limita ao control “c” control “v” na biografia que primeiro surgir na tela do computador. E suponha que o autor da biografia, mal intencionado, afirme que além de filósofo Kant foi jogador de futebol e artilheiro do Campeonato Alemão em 2002, além de ter sido um frequentador assíduo de baladas gays. E aí, como é que fica a história?

Faço este comentário porque está postada hoje no YouTube a narração do radialista José Silvério do 100º gol que o goleiro Rogério Ceni marcou ontem, um feito histórico que talvez jamais venha a se repetir no futebol (http://www.youtube.com/watch?v=fUglAfFEP9c).  Logo abaixo da imagem do goleiro cobrando a falta no jogo contra o Corinthians, o primeiro comentário de um internauta diz que se trata de uma montagem, não é a mesma narração feita no calor da partida. Como não ouvi a transmissão no rádio, não sei o que é verdade ou mentira. O fato de ser uma coisa ou outra não vai mudar a história ou melhorar a vida de ninguém. Mas expõe a importância de que sejam redobrados os cuidados para que a verdade prevaleça na internet, seja a favor ou contra o que pensamos.

Durante muitos anos os veículos de comunicação impressos foram refratários ao emprego de efeitos especiais ou montagens nas fotografias jornalísticas, justamente para que elas expressassem o máximo possível a fidelidade aos fatos das reportagens. Isso só era admitido, e com todos os devidos cuidados, em casos de reportagens especiais em que as imagens apenas criavam um efeito visual gráfico – e não alteravam em nada o conteúdo do que estava escrito. Hoje, é tamanho o avanço tecnológico que já deparamos com alguns casos de relaxamento dessa regra. A vida, em muitos sentidos, está mesmo cada vez mais parecida com ficção.

Bem… está aí uma boa questão para se pensar. Você concorda com o Eco? Eu concordo e acho que não há motivo para pânico, mas precisamos nos cuidar desde já.

Minha vida de taxman

A atual polêmica em torno dos direitos autorais, que envolve a nova ministra Cultura, Heloísa Buarque de Holanda, reacendeu em minha memória duas histórias da juventude.

Eu tinha entre 16 e 17 anos quando um despachante de Santo André, que representava a Sbat – então denominada Sociedade Brasileira de Autores Teatrais – me convidou e remunerou para fazer a cobrança dos direitos autorais de espetáculos apresentados na cidade.

Minha primeira grande surpresa nessa atividade ocorreu no dia em que ele me pediu para ir a um cinema da cidade – o Cine Tamoio – para fazer a cobrança dos direitos autorais de um show de strip tease, que obviamente era proibido para menores de idade (meu caso naquela época).

Pensei que o despachante estava brincando comigo, mas era verdade. Achei inacreditável que um show sem autor, sem roteiro e sem direção – no qual mulheres rebolavam e contorciam os corpos aleatoriamente, tirando peça por peça as roupas que vestiam, tendo como único elemento cênico um mastro fino e arredondado no centro do palco – tivesse de pagar direito autoral. Mas teve e pagou, porque assim determinava uma lei (o texto está no passado porque não sei se isso continua valendo ainda hoje).

Creio que a razão da cobrança não foi a natureza da apresentação, mas o fato de ela ser realizada num palco. Fiquei sabendo que todas as boates, os inferninhos, recolhiam direitos autorais quando apresentavam dançarinas e stripers. Se isso valer ainda hoje, é evidente que ocorram cobranças similares em apresentações de sexo explícito. Minha dúvida é: se não há autor, quem fica com a grana?

Como eu integrava um grupo de teatro amador naquela época, um grupo que durou pouco mas foi importante na minha formação cultural, é evidente que a diversão com os amigos nos dias seguintes à cobrança no Cine Tamoio foi imaginar como seria escrever (ou roteirizar) e dirigir um espetáculo de strip tease. Criamos uma espécie de laboratório que nos excitava bastante – e ajudou a quebrar preconceitos que tínhamos com relação a dançarinas, stripers e prostitutas.

Mas a história mais relevante da minha aventura juvenil como cobrador de direitos autorais se deu algum tempo depois, quando a épica montagem brasileira de “O Homem de La Mancha”, de Miguel de Cervantes, fez a sua estréia nacional no Teatro Municipal de Santo André. Estrelada por Paulo Autran, Bibi Ferreira e Grande Otelo, a montagem tinha direção de Paulo Pontes e Flávio Rangel, com músicas vertidas para o português por Chico Buarque e Ruy Guerra.

À exceção de Chico Buarque e Ruy Guerra, convivi com todo esse pessoal durante o mês em que a peça ficou em cartaz em Santo André. Assisti a ensaios, fui a almoços e jantares e, o melhor de tudo, fiz amizade com o Paulo Pontes, que era quem conferia comigo, todos os dias, os valores que eram recolhidos como direitos autorais.

Casado com Bibi Ferreira, e já consagrado como um dos maiores nomes do teatro brasileiro – alguns anos depois, quando eu já era jornalista e atuava na área de cultura, ele seria o parceiro de Chico Buarque na premiadíssima “Gota D’Água” – o Paulo era um homem simples, mirrado, muito magro mesmo. Gostava de me ouvir falar sobre como era a vida no ABC, o ambiente das indústrias, os jovens filhos de operários e o teatro amador de Santo André (que na época era conhecido em todo o Brasil pela sua qualidade e ousadia). Ele conhecia e gostava de atores da cidade, como o Antonio Petrin, a Sonia Guedes, a Analy Alvarez e o Henrique Lisboa.

Foi uma honra ter convidido todos os dias de um mês com o Paulo. Enquanto o espetáculo transcorria no palco, ficávamos batendo papo numa salinha dos bastidores do teatro. Quando ele leu o meu primeiro texto sobre teatro, publicado pelo Diário do Grande ABC, mandou um telegrama cumprimentando.

Sua morte, devido a uma grave enfermidade, com apenas 37 anos de idade, foi uma perda irreparável para a cultura brasileira. Paulo Pontes também foi um dos autores do seriado “A Grande Família”, que a Globo apresenta até hoje com muito sucesso de público e crítica. Ele ainda roteirizou o show “Brasileiro, Profissão Esperança”, estrelado por Paulo Gracindo e Clara Nunes no início dos anos 70.

Graças à cobrança de direitos autorais, tive a oportunidade de conhecer muita gente importante do teatro brasileiro: Maria Dela Costa, Sandro Polone, Raul Cortez, Ziembinsky, Silney Siqueira, Celso Nunes, Eva Wilma, John Herbert, Nicete Bruno, Paulo Goulart, Carlos Zara… Lamento não ter procurado saber mais sobre essa atividade. Até gostaria de ter uma opinião sobre a polêmica que ocorre hoje. Mas, pensando bem,  talvez seja mesmo melhor guardar as boas lembranças e desejar que os artistas sejam sempre remunerados justamente pelo que produzem.

E que todas as pessoas que cuidam da gente nunca se descuidem do amor.

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